Mais uma noite reflexiva.
As seqüelas lembraram-me de João.
Seu nome é João.
Herdou os olhos do pai.
E vive a arte de ter o nariz avermelhado.
Seu trabalho é fazer as pessoas sorrirem.
Sentirem-se bem.
Um exímio sugador da tristeza alheia.
Essa é sua função.
Interessante.
Fugaz.
Talvez mórbida.
Volta e meia pode encontrá-lo com malabares nas mãos.
Em cima de uma corda a se equilibrar.
E passa o dia todo com uma maquiagem que escurece.
Ao passo que dá brilho à face resignada.
E me fez lembrar um fato específico.
Durante o espetáculo, de rotina.
Uma criança viu correr dos seus olhos uma lágrima.
Que as fortes tintas do rosto não o permitiram sentir.
Nem mesmo impedi-la de lançar-se ao chão.
A menininha gritou da platéia:
- Ei, mamãe... por que ele chora enquanto sorri?!
A mãe da menina nada viu, nada entendeu.
Na verdade a casca de João, que agora chamo de Pedro, estava ali.
Invólucro que bem sabe o que fazer, mesmo com sua alma longe dalí.
Ela foi bem treinada para enganar.
Ou melhor... entreter as pessoas.
E ninguém deu atenção àquela pequenina.
Mas Pedro pode notar os lábios que se moviam e o olhar de decepção.
Naquele momento, por dentro, se rasgava o personagem que pintaram para aquele ser.
E sentiu-se um traidor.
Devem ter ensinado para ela que os palhaços nunca choram.
Mas...
O nome dele é José.
É um palhaço.
Não se sabe sua identidade.
E pude descobrir o porquê.
O motivo de tanta tinta no rosto após aquela noite.
Ela ajuda a esconder suas rugas.
As suas decepções.
Os desapontamentos alheios.
As desilusões absorvidas em cada espetáculo.
Ao focalizarem no seu rosto pintado esquecem-se.
Daqueles ombros miúdos e caídos.
Que residem dentro daquelas roupas largas.
E dos sapatos gigantes que cabem até três pés.
E Antônio já se acostumou tanto com o traje que...
Dorme assim.
Vive assim.
De todos os lugares que seu corpo passou, só lembra-se do fim do espetáculo.
Alí no picadeiro.
Ele parece não ser ele.
Perto das pessoas outro ser.
Que arrebata as angústias.
E tristezas nos olhares que se convertem em alegria, mesmo que efêmera.
E pensava em abandonar aquela vida de fazedor de sorrisos...
E tornar-se alguém real.
Mas quem?
Como?
Essa história de ser real o assusta tanto.
O que ele toca é tão passageiro...
Na verdade nem é tão ruim assim ser palhaço.
Sugador de tristeza.
Espalhador de alegria.
Quiçá o mundo dele é melhor que o seu... será?
Porventura ele tornou-se um tanto mecanizado devido à rotina... e você?
Seu nome é Alberto.
Isso mesmo.
Ele não tem nome certo.
Nem idade.
Nem paradeiro.
Ele mora naquela esquina ali por uns dias...
Em outros dorme acolá com os cachorros da rua...
Seu salário é o seu sorriso.
Mesmo que insano.
Em troca de um real ou um copo de cachaça.
E minha mente vive um devaneio sem fim.
Que por vezes escreve com o fígado.
Que oscila há umas quarenta e seis horas.
Por vezes guardo comigo as lágrimas minhas.
Embrulhadas numa carta.
Com perfume de almíscar.
Se eu dissesse ser duro meu coração, mentiria.
Coração mole é o meu, de cera.
Coração bobo é o meu, de vento.
Que esquece e tira a armadura.
Para viver de novo o que já se viu machucar.
A alma outrora lá atrás e, talvez daqui pro tempo vindouro.
Coração pequeno é o meu, diminuto.
Cabe bem aqui nesse ato de teclar.
Que não sabe abrigar esse turbilhão de emoções.
Que invadem meu ato de piscar.
De beber.
De comer.
De sorrir.
Besta coração camuflado de castigo.
Entre sonho e pesadelo.
Real e abstrato.
Desconhecido de mim.
Tão imprevisível...
Que na caverna vive no breu a pensar.
Cláudio M.

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