quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Desbaratado...



Destroços de um acidente aéreo.
Uma cena nada agradável.
Estou aqui.
Cacos.
Farrapos.
As lascas de um ser humano.
O pó de um corpo carcomido.
Muita dor.
Oh céus!
Tudo esfacelado.
Nada no lugar certo.
As orelhas estão a 15 metros dos tornozelos desconjuntados na queda.
A língua foi engolida por ele mesmo.
Ficou sem palavras.
Emudeceu.
Recolhi-me no meu dolorido desdenho.
A língua estava amarga pelo dissabor.
Como queria fazer algo.
Arrepio acompanhado de choro.
Vontade de gritar por ajuda.
Ninguém o ajudaria, senão eu.
Minha vontade era deitar com a cabeça entre os joelhos.
Ser uma bola de carne humana nesse exato momento.
Mas um joelho está na minha frente o outro no cume daquela centenária cerejeira.
Não alcanço.
Eu tinha que estabelecer o controle nesse momento.
A cabeça?
Saberá o santo onde se encontra.
Aquele corpo falecera.
Estilhaçado.
Despedaçado.
Ele caiu da minha águia.
Aliás, da águia de Leonardo Boff.
Eu não sabia que somente eu poderia galgar nos lombos dela.
Levei a parte material do meu ser animado, o Cláudio quem vós conheceis.
É duro!
Achei que conhecia, mas desconheço.
Tudo que se refere ao mundo material tenho vago conhecimento.
Sou leigo nos assuntos mundanos.
E o pouco que conheço fez-me levar o meu corpo material junto.
Fui ludibriado mais uma vez pela aparência humana.
O vôo começou tranqüilo.
O Cláudio sentia-se realizado.
Feliz por chegar mais perto do Infinito.
Por conhecer aquilo que era desconhecido.
E a águia subia mais alto.
Num instante o perdi de vista.
Ele caiu.
Eu sobrevivi.
Eu sempre sobrevivo aos golpes que ele leva.
Sou eu quem ajunta os farelos que lhe resta todas as vezes.
Eu o remonto.
Eu o restabeleço.
Eu lhe dou o ânimo necessário para continuar.
Por vezes ameaçou parar a jornada.
Ele é falível.
Fraco.
Eu sou eterno.
Tenho o mapa dos ligamentos humanos.
Sei a quantidade dos fios de cabelo, de cada pêlo espalhado pelo corpo e onde se localiza cada dor que ele sente.
E sei que nesse momento ele possui dor.
Ouço gemidos que me chamam.
Sei muito bem onde se encaixam cada osso, cada músculo.
Conheço cada seqüência de pensamentos que passa naquele corpo.
Os neurônios, as sinapses, os hormônios, as glândulas, as células, os órgãos...
Possuo o endereço de cada um, mas somente desse corpo que me foi presenteado há 23 anos.
Sei apreciar cada defeito e cada qualidade que ele possui.
Sou paciente.
Sou cauteloso.
Essa carne fraca e mortal, destroçada na queda horrenda e macabra, foi emprestada pelo criador.
Agora é recolher os cacos que restaram.
Remontar aquilo que se pode e tem condições de voltar a ser usado.
Como dói recolher os cacos.
Como portar-se-á diante dos outros semelhantes?
Meu mestre sabe muito bem.
Ele é convalescente.
Precisa de cuidados.
Quem vos fala?
Quem digita aqui?
Quem está sentado nessa sólida cadeira?
A essência dele, imutável e verdadeira como sempre foi e será, a alma do Cláudio.
Cláudio M.

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