sexta-feira, 2 de março de 2012

Nasça!



A vontade voltou...
Eu queria ser maior.
Queria ser livre como os pássaros.
Leve como o vento.
Brilhante como o sol.
Misterioso como a lua.
Doce como as nuvens de algodão.
Queria ser como os poetas, sem residência fixa, roupas ou relógio.
Eu quero um canto.
O meu canto se perdeu em algum lugar sem estrada.
Tento encostar em mim.
Repousar, mas falta algo.
Eu procuro um corpo para abrigar a minh’alma cansada.
Eu procuro você.
Para cuidar das minhas feridas.
Secar minhas lágrimas.
Ser meu herói.
Meu vilão.
Mas você não existe!
Convenci-me disso.
Agora só falta-me conformar.
Você só sabe habitar os meus desejos.
Habita os pensamentos de explicação à minha existência.
Nunca contemplei tua face.
Nunca ouvi tua voz.
Suas mãos não quiseram tocar as minhas
Seu olho não quis ser o meu.
Eu te procuro em cada móvel do meu quarto.
Em cada canto da minha casa.
Em cada encruzilhada de mim.
Eu te guardo nas palavras que escrevo.
Um dia você virá... aí vou lhe inundar com elas quando você chegar pra mim.
Você é só um estranho.
Eu não sei nada sobre teus caminhos.
Desconheço-te.
Porque você não joga pedras na minha janela nas madrugadas?
Porque não me rapta para algum lugar?
Porque não me beija enquanto durmo?
Cólicas de esperança eu tenho.
Perdi o sono imaginando.
Desejando tua face desconhecida.
Um turbilhão de idéias me sobrevém.
E meu coração empoeirado.
Peço que o pó te sopre em meu coração.
Que meu coração seja o palco onde você encene.
E que o palco seja eterno como o beijo que sonho em guardar.
Faça-me rir.
Não minta para mim.
Transporte-me a lugares inabitados.
Faça-me chorar de raiva e de agonia na sua ausência.
Quero tê-lo!
Faça-me sentir vontade de correr quilômetros ao seu lado.
Faça-me sentir vontade de voltar mil vidas para viver todas elas com seu perfume.
Me deixa ser seu pesadelo e seu sonho bom.
Seu espanto e sua alegria.
Deixa-me ser seu passado colorido e o seu presente no futuro.
Quero deixar de levar a vida tão a sério com você.
Falar de sorvetes de manga...rsrs.
Colher amoras que mancham as mãos e os dentes.
Quero você!
Meu Ser vai ser maior... quando você se materializar.
Quando você me tirar para dançar aquela música que ainda vou inventar só para nós dois.
Porque meu corpo é só uma parte sem você.
Quero unir meu mundo ao seu.
Seremos a intersecção de dois mundos.
Eu e você.
Querido amor sem nome.
Desconhecido.
Não nascido.
Não sabido.
Seremos dois meios de um inteiro.
Quando completos viveremos o estágio do amor-primeiro.
Do amor-verdade.
Do amor-infinito.
Do amor-último.
Do amor-razão
Do amor-único.
Do amor-maior
Do amor.
Eu permaneço esperançoso...
Eu te descrevo.
Eu te escrevo.
Eu te desejo.
Eu te leio
Eu te rezo.
Eu te peço: Nasça para mim!
Cláudio M.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O extorsionista...



Mais uma noite reflexiva.
As seqüelas lembraram-me de João.
Seu nome é João.
Herdou os olhos do pai.
E vive a arte de ter o nariz avermelhado.
Seu trabalho é fazer as pessoas sorrirem.
Sentirem-se bem.
Um exímio sugador da tristeza alheia.
Essa é sua função.
Interessante.
Fugaz.
Talvez mórbida.
Volta e meia pode encontrá-lo com malabares nas mãos.
Em cima de uma corda a se equilibrar.
E passa o dia todo com uma maquiagem que escurece.
Ao passo que dá brilho à face resignada.
E me fez lembrar um fato específico.
Durante o espetáculo, de rotina.
Uma criança viu correr dos seus olhos uma lágrima.
Que as fortes tintas do rosto não o permitiram sentir.
Nem mesmo impedi-la de lançar-se ao chão.
A menininha gritou da platéia:
- Ei, mamãe... por que ele chora enquanto sorri?!  
A mãe da menina nada viu, nada entendeu.
Na verdade a casca de João, que agora chamo de Pedro, estava ali.
Invólucro que bem sabe o que fazer, mesmo com sua alma longe dalí.
Ela foi bem treinada para enganar.
Ou melhor... entreter as pessoas.
E ninguém deu atenção àquela pequenina.
Mas Pedro pode notar os lábios que se moviam e o olhar de decepção.
Naquele momento, por dentro, se rasgava o personagem que pintaram para aquele ser.
E sentiu-se um traidor.
Devem ter ensinado para ela que os palhaços nunca choram.
Mas...
O nome dele é José.
É um palhaço.
Não se sabe sua identidade.
E pude descobrir o porquê.
O motivo de tanta tinta no rosto após aquela noite.
Ela ajuda a esconder suas rugas.
As suas decepções.
Os desapontamentos alheios.
As desilusões absorvidas em cada espetáculo.
Ao focalizarem no seu rosto pintado esquecem-se.
Daqueles ombros miúdos e caídos.
Que residem dentro daquelas roupas largas.
E dos sapatos gigantes que cabem até três pés.
E Antônio já se acostumou tanto com o traje que...
Dorme assim.
Vive assim.
De todos os lugares que seu corpo passou, só lembra-se do fim do espetáculo.
Alí no picadeiro.
Ele parece não ser ele.
Perto das pessoas outro ser.
Que arrebata as angústias.
E tristezas nos olhares que se convertem em alegria, mesmo que efêmera.
E pensava em abandonar aquela vida de fazedor de sorrisos...
E tornar-se alguém real.
Mas quem?
Como?
Essa história de ser real o assusta tanto.
O que ele toca é tão passageiro...
Na verdade nem é tão ruim assim ser palhaço.
Sugador de tristeza.
Espalhador de alegria.
Quiçá o mundo dele é melhor que o seu... será?
Porventura ele tornou-se um tanto mecanizado devido à rotina... e você?
Seu nome é Alberto.
Isso mesmo.
Ele não tem nome certo.
Nem idade.
Nem paradeiro.
Ele mora naquela esquina ali por uns dias...
Em outros dorme acolá com os cachorros da rua...
Seu salário é o seu sorriso.
Mesmo que insano.
Em troca de um real ou um copo de cachaça.
E minha mente vive um devaneio sem fim.
Que por vezes escreve com o fígado.
Que oscila há umas quarenta e seis horas.
Por vezes guardo comigo as lágrimas minhas.
Embrulhadas numa carta.
Com perfume de almíscar.
Se eu dissesse ser duro meu coração, mentiria.
Coração mole é o meu, de cera.
Coração bobo é o meu, de vento.
Que esquece e tira a armadura.
Para viver de novo o que já se viu machucar.
A alma outrora lá atrás e, talvez daqui pro tempo vindouro.
Coração pequeno é o meu, diminuto.
Cabe bem aqui nesse ato de teclar.
Que não sabe abrigar esse turbilhão de emoções.
Que invadem meu ato de piscar.
De beber.
De comer.
De sorrir.
Besta coração camuflado de castigo.
Entre sonho e pesadelo.
Real e abstrato.
Desconhecido de mim.
Tão imprevisível...
Que na caverna vive no breu a pensar.
Cláudio M.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Parte...

Éh!
Realmente não tenho essa idade.
Acho que a esse século não pertenço.
Muito menos a essas roupas que me tapam o corpo.
Assemelho-me a um objeto antigo.
Talvez o seja mesmo.
Uma coisa obsoleta.
Que se arrastou no tempo.
Tentando se adaptar à contemporaneidade.
Uma máquina à vapor.
Um talher esculpido em pedra.
Uma pena que escreve em papiro.
Vivo entre reis e príncipes.
No tempo em que as fadas existem.
E duendes perambulam por aí.
Sou do tempo dos alquimistas.
Das bruxas lançadas na fogueira.
Talvez sinta isso porque sinto demais.
Sofro demais.
Observo demais.
Parece que em nenhuma Era me encontro.
Nenhum pensamento me alcança.
Vejo-me descalço em noite fria.
Sem chão para palmilhar.
Sem mensagem para mandar.
Sem um pedaço de papel para rabiscar.
Avião sem onde pousar.
Destemidamente digo que uma criança sem colo.
Doce e amarga ingenuidade que me segue.
Vivo num estado complexo do meu existir.
De predicados eu preciso.
De mais predicados.
Sou curioso.
Insaciável.
A escrita me acalma.
Os pensamentos me devoram.
Atingem-me.
Preciso de significados.
Mesmo nesse mundo que nada faz sentido.
Entrego-me completamente à procura.
Por vezes revelo-me nas entrelinhas.
Nos amontoados de palavras consigo descanso.
Sinto-me um livro de capas grandes.
Cheios de desenhos.
Cobertos de cores.
Lido pelo Infinito.
Sou terráqueo.
Humano até demais.
E erro.
E erro novamente.
E caio.
E levanto.
E torno a cair e levantar e sinto.
Vivo de sentir.
Sinto-me assim.
Ofegante.
Meus olhos refletem fantasia no meu interior.
Ora aqui dentro chove.
Ora faz sol.
Há estados que ainda não decifrei.
São curiosidades que tenho.
Vivo em constantes mudanças.
Acho que não estou pronto.
Somos seres inacabados.
Procuramos por partes.
Por peças.
Cláudio M.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Uma vez mais...



Hoje será um dia marcante.
Jamais esquecerei meus pensamentos de hoje.
Os sentimentos que tenho ao dedilhar o teclado.
Nunca agi assim.
Nessa tarde nublada.
Os ventos sacodem as mangueiras do outro lado da rua.
As brisas balançam minhas cortinas.
E invade meu quarto.
Um ar aconchegante assopra minha pele.
O sinto como seu toque em mim.
Eu aqui dominado por uma sensação que jamais tive.
Meus olhos lacrimejam sem minha vontade.
Na minha cama sinto a sua presença.
Fecho os olhos e ... vejo entre meus braços.
Sinto o seu cheiro.
Ouço a sua voz.
O meu interior anseia por ter-te mais uma vez.
Quero você.
Já não consigo viver solto de ti.
Simples atos tornaram-se duplos para mim.
Almoçar.
Pensar.
Dormir.
Antes de comer algo penso se já comeste também.
Antes de pensar em fazer algo já me lembro da sua face e no que estás a fazer.
Antes de descansar as pálpebras velo seu sono, mesmo que alguns quilômetros nos distanciam.
Às vezes penso que não me cabem tantos sentimentos.
Ah, como me é divertido rir dos seus risos largos.
Ah, como me é delicioso beijar os seus lábios.
Ah, como me é perfeito olhar os seus olhos.
Ah, como me é bom acariciar seus cabelos.
Abrigar meu corpo no seu.
Como a luva abriga a mão.
Acho que tenho em mim a loucura dos que amam.
Dessa loucura mais sã que meu coração experimentou quero embriagar-me.
Embebedar-me com seus beijos.
Inebriar-me com seus abraços.
Ah, se alguém me visse agora.
Não entenderia o que se passa.
Louco seria meu nome.
Uma mescla de tristeza e felicidade.
Indefinível.
Inexplicável.
No pouco tempo que se passou.
Não pude controlar a intensidade que tudo tomou.
Aqui dentro você é parte de mim.
A sua ausência me deixa com saudades.
Saudades da sua parte em mim.
Saudades de você.
Saudades de mim.
Desesperada é a minha respiração quando te encontra.
Úmidas ficam as minhas mãos quando te alcançam.
Indescritível o que sinto.
Há meses que nossos lábios se encontraram.
Meus olhos já te procuravam incessantemente.
Aqui nesta Terra eu já te imaginava.
Desenhava-te nos meus sonhos.
Via-te antes de te conhecer.
Agora tenho vontade de ter-te nos meus braços.
Mais uma vez.
Cláudio M.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Neurografia...



Estava frio, mas tive calor.
Meu coração galopava no peito.
Meu rosto fervia.
O suor descia frio.
Evaporava na pele quente e trêmula.
Tive náusea.
Fiquei tonto.
Minhas mãos formigavam.
Meus pés dormentes.
Os olhos abriam e fechavam.
Cada vez ficava mais difícil enxergar o horizonte.
Tive medo.
Quis gritar.
Eu já respirava com dificuldade.
Faltou-me o fôlego.
Entalei com o silêncio.
Senti meu íntimo se despersonalizar.
Eu já conseguia me ver.
Flutuava sobre mim os meus olhos.
Os calafrios me atormentavam.
Lembrei-me da morte.
Pensei que fosse partir.
Sensação infausta.
Senti minha mente vazia.
Mas pesava como chumbo.
E a dor latejava sem misericórdia.
Eu já imaginava meu pescoço desfazer-se a qualquer momento.
Meus neurotransmissores gotejavam na velocidade da luz.
Tudo se tornava hostil.
Um ar beligerante nas sinapses.
Ameaçado pelos neurônios, eu estava.
As unhas entranhavam-se na almofada da cadeira.
Algo estava prestes a acontecer.
Neurastenia.
Minhas lembranças vestiram-se de branco.
Pensei que era paz.
Trégua.
Descanso para as turbulências que eu desconhecia.
Mas minha memória tomou lugar de enfermeira.
Fui refém.
Amordaçado por dentes que rangiam.
Lábios trancados por uma contração involuntária.
Aplicou-me nas veias uma dose de desgosto.
Gota a gota eu sentia entrar como fogo.
A carne gemia.
Nas minhas veias jorrava decepção.
Nas entranhas corria o dissabor.
Tive sintomas de desilusão.
Uma dose quase letal de mágoa.
As lembranças me traziam dor.
Ali o meu discernimento corria da recordação.
O que estava enterrado ressurgia sem piedade.
Esmigalhando o resto de sentimentos que me havia.
Eu precisava fugir dali, mas não pude me abandonar.
Um dilúvio sobreveio na minha expectativa.
Afogou-se nas lágrimas d’outro dia.
Cheguei à beira da loucura.
Do descontrole nervoso.
E senti a última gota daquele líquido de pesar medonho.
Tive instantes de alívio.
A batalha aproximava-se do fim.
Como um neuroléptico o meu Presente vencia a lembrança remota.
O ar voltava entrar livremente.
Os olhos retomavam seus eixos.
Nervos relaxaram novamente.
O coração pulsava como antes.
O ar funesto saíra.
A dor adormecia lentamente.
A cruel lembrança tomava distancia.
O Sol da esperança renascia.
Nuvens da expectativa surgiam do Infinito.
As escoriações desapareciam com o bálsamo da lealdade.
O presente sarava as escoriações.
E ali mesmo almejava o que me aprazia.
O Futuro.
Cláudio M.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Silêncio...

Hoje acordei às 11 horas, e ainda com sono.
Reclamei pelo barulho do lado de fora do quarto.
Pedi para me deixarem dormir mais.
Rendi-me.
Despertei-me.
Tomei parte da consciência.
Senti que esse seria mais um daqueles dias.
Dia em que tudo parece mais lírico do que o habitual.
Pensei em mim.
Pensei onde estava no mundo.
Não consegui concluir nada.
Por mais óbvio que fosse nada fazia sentido.
Aliás, não consegui imaginar algo concreto.
Uma imensidão de sensações chocavam entre si.
Quem sou eu?
O que sinto?
Não sei.
Eu realmente não sei.
E sei, ainda menos, por que estava pensando nisso tudo agora.
E ao mesmo tempo em que as sensações são arrebatadoras, elas se entrelaçam entre si.
Dão vida a sentimentos que não são muito humanos.
Eu não deve ser humano.
Os terráqueos me surpreendem.
Me encabulam.
Me chocam.
Vivo à mercê das mil antíteses que me habitam.
Não me canso de explorá-las.
Não sei vestir-me de modo que pareça outro.
Não sei dissimular minhas palavras.
Não sei mascarar meu riso.
As pessoas insistem que eu seja meio.
Mas não consigo.
Ou sou inteiro ou não sou nada.
Não consigo fazer dosagem.
Não consigo lançar meias-palavras.
Para além do horizonte gosto de levar minhas sensações e percepções.
Gosto de dar asas a mim mesmo.
Gosto de detestar.
Gosto de gostar.
Gosto de amar.
Sou eu.
Gosto de não tapar.
Gosto de não fingir.
Gosto de não encobrir.
Gosto de não disfarçar.
Por isso parei de me auto-sabotar.
Cansei de negar minha essência.
Sufocar minhas explosões.
Gostar de quem não gosto.
Sorrir para quem não vejo graça.
Ser social quando não quero.
Cansei da falsidade que tentaram me ensinar.
Não aprendi.
Por isso fiquei só.
Sempre só.
Faltou-me ar.
Um bafejo quente circundou-me.
Estava a buscar uma explicação.
A roupa comprimia meus lombos.
Tinha sono, mas não queria dormir.
Tinha fome, mas não queria comer.
Meus olhos divagavam de um lado para o outro.
Meu corpo estava cansado.
Estava a pensar.
Sempre a pensar um pouco mais.
Vi-me no meu calabouço.
No silêncio de uma voz que não tem com quem falar.
No silêncio da escuridão que nada diz.
Perante a fraca luz que penetra pela janela.
Atravessa o breu e atinge minha face.
O delírio de um coração que bate calado.
O meu mundo.
Por isso aqui só tem espaço para as luzes inconstantes.
Que sabem apreciar tudo que foge do lugar comum.
Que me faz enxergar a plenitude do Infinito.
Apenas só.
E sempre só.
No meu silêncio.
Consigo vislumbrar a luz na dosagem certa.
Que não secam as folhas do canteiro.
Que fazem florir o jardim.
E vejo-o tão lindo
Tão cheio de mistérios a serem desvendados.
Novas cores.
Diversos cheiros.
Várias texturas.
O meu jardim.
Aguarda a chuva para o outono.
E aproxima-se a colheita.
Eu apenas só.
Sempre só.
No meu silêncio.

Cláudio M.