
Uma campina.
Um deserto.
Uma flor.
Uma esperança.
À espera de uma borboleta.
Apenas uma.
Aquela que fará o papel polinizador, somente.
Raras são essas.
Que poderá trazer alegria à posteridade da flor.
Há borboletas que pousam para botar ovos.
Comuns são essas.
Larvas que nascem.
Larvas que crescem.
Larvas que consomem as folhas.
Larvas que sugam energias.
Larvas que se tornam outras borboletas.
Sou eu a flor.
Acabo sendo parte de um ciclo.
Um instrumento.
Um cabide de borboletas.
Nenhuma que possui peças bucais adaptadas para a sucção do meu néctar.
Nenhuma preparada para satisfazer as minhas necessidades.
Nenhuma capaz de fazer seu papel polinizador.
Nenhuma compatível.
Cansei.
Cansei dos besouros que comem minhas folhas sem remorso.
Cansei das formigas que ousam roubar meu néctar sem escrúpulos.
Cansei das aves de rapina que comem meus restos.
Cansei daquelas flores que crescem almejando minha queda.
Cansei daqueles vegetais que liberam toxinas no solo para aniquilar minhas raízes.
Cansei dos batráquios.
Aqueles que do meu lado devoram as inocentes borboletas antes mesmo de pousar.
Outros que as consomem quando pousam.
Perdi parte das minhas pétalas.
Já tive o caule ferido.
Raízes futricadas.
Folhas arrancadas por despeito.
Pés que pisaram sem misericórdia.
Tempestades que me deixaram sem nada.
Ventos que retorceram meu caule.
Venenos misturados com a água da confiança.
Adubo vencido já foi meu alimento.
Água da fossa já aplacou minha sede.
Passei sede.
Várias vezes eu tive que abrir mão das minhas folhas.
Das minhas pétalas.
Do meu orgulho.
Das minhas vontades.
Para enfrentar as secas.
A impiedosa aridez que me sobrevém.
A flor continua só.
Largada no chão trincado.
Ainda existe seiva.
Raízes profundas buscam alimento no Infinito.
Sobrevivi.
Continuarei a sobreviver.
Mas cansei.
Estou cansado.
Cansei de cansar de estar cansado estando cansadíssimo.
Cláudio M.
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