Éh!
Realmente não tenho essa idade.
Acho que a esse século não pertenço.
Muito menos a essas roupas que me tapam o corpo.
Assemelho-me a um objeto antigo.
Talvez o seja mesmo.
Uma coisa obsoleta.
Que se arrastou no tempo.
Tentando se adaptar à contemporaneidade.
Que se arrastou no tempo.
Tentando se adaptar à contemporaneidade.
Uma máquina à vapor.
Um talher esculpido em pedra.
Um talher esculpido em pedra.
Uma pena que escreve em papiro.
Vivo entre reis e príncipes.
No tempo em que as fadas existem.
E duendes perambulam por aí.
Sou do tempo dos alquimistas.
Das bruxas lançadas na fogueira.
Talvez sinta isso porque sinto demais.
Sofro demais.
Observo demais.
Parece que em nenhuma Era me encontro.
Nenhum pensamento me alcança.
Vejo-me descalço em noite fria.
Sem chão para palmilhar.
Sem mensagem para mandar.
Sem um pedaço de papel para rabiscar.
Avião sem onde pousar.
Destemidamente digo que uma criança sem colo.
Doce e amarga ingenuidade que me segue.
Vivo num estado complexo do meu existir.
De predicados eu preciso.
De mais predicados.
Sou curioso.
Insaciável.
A escrita me acalma.
Os pensamentos me devoram.
Atingem-me.
Preciso de significados.
Mesmo nesse mundo que nada faz sentido.
Entrego-me completamente à procura.
Por vezes revelo-me nas entrelinhas.
Nos amontoados de palavras consigo descanso.
Sinto-me um livro de capas grandes.
Cheios de desenhos.
Cobertos de cores.
Lido pelo Infinito.
Sou terráqueo.
Humano até demais.
E erro.
E erro novamente.
E caio.
E levanto.
E torno a cair e levantar e sinto.
Vivo de sentir.
Sinto-me assim.
Ofegante.
Meus olhos refletem fantasia no meu interior.
Ora aqui dentro chove.
Ora faz sol.
Há estados que ainda não decifrei.
São curiosidades que tenho.
Vivo em constantes mudanças.
Acho que não estou pronto.
Somos seres inacabados.
Procuramos por partes.
Por peças.
Cláudio M.




