terça-feira, 6 de setembro de 2011

Sentimento...

A cada dia faço uma nova descoberta.
Dessa vez tive certeza: Eu sinto.
Não é somente sentir.
Nem perceber, pensar, conhecer, reconhecer, adivinhar.
Não é somente isso.
Eu sinto demais e sempre mais.
Posso sentir muitas coisas.
Até o que alguém não imagina.
Hoje, em especial, acordei daquele jeito.
O jeito que somente eu sei.
A garganta seca.
Resgatado de sonhos longínquos.
E eu conseguia ouvir tudo.
Um ônibus que passou na avenida.
O ruído infernal de uma motocicleta.
O barulho do ar-condicionado.
Os chiados da vassoura de um gari do outro lado da rua.
Um pernilongo faminto me sondando.
Um rodo que batia nos cantos da casa.
O Tic-Tac dos meus relógios de pulso.
Eu percebia tudo.
Levantei e saí do quarto.
Estava amargurado com qualquer manifestação de vida ao meu redor.
Falaram comigo: Não pise aí, estou limpando!
E meu olhar foi ríspido.
O cachorro do vizinho latia, me incomodou.
O vento da manhã bateu em meu corpo e, por alguns instantes odiei aquilo.
Porque mesmo que a angústia me domine por inteiro, eu posso sentir demais e sempre mais.
Não tive fome, embora quisesse comer.
O meu horizonte estava acinzentado.
Pelo extremo do sentir eu passava.
Coloquei a primeira roupa que vi na frente.
Fui ao supermercado.
No caminho abri o vidro do carro, mas me incomodei com as pessoas ao lado que me olhavam.
Eu não queria estar ali.
Não queria que me olhassem.
Não queria falar com ninguém.
Naquele momento eu não podia transmitir nada de bom.
Nem para o ser mais medíocre que cruzasse meu caminho.
Eu só queria chegar ao supermercado e voltar pra casa.
Fechar-me em meu mundo de palavras.
Porque mesmo que alguém sinta algo eu sinto em dobro.
Eu posso sentir demais, sempre mais.
É um sensor que não desliga.
Já em casa pus-me à frente do computador e comecei a digitar.
Todas as frases que me vieram eu registrava.
Estava trancado em mim mesmo.
Minhas vontades gritavam.
Desejos aflorados cercados por grades.
Como um selvagem esganiçando-se numa cela.
Eu podia sentir o paraíso, mas também a melancolia.
E quando estou nela...
Risos.
Consigo viver cada letra que compõe um substantivo.
Eu sinto intensamente.
Eu sinto exageradamente.
Então penso que não gostaria de sentir.
Mas aí me lembro da sensação horrível de quando acordei.
Eu estava seco, mas agora acabo mergulhando numa tristeza ligeiramente contente.
Consegui sentir em apenas alguns minutos todas as sensações que eu poderia imaginar.
Uma sede avassaladora.
O ganhar na loteria.
Um pós-operatório.
Uma fome gritante.
A dor de um parto.
Um abraço.
Uma surra.
Um amor.
E uma sutil tristeza me irrompeu.
Por que sinto tanto?
Por que não sou apenas mais um que vê tudo de forma superficial?
Por que sou tão profundo ao ponto de ser dilacerado por algum desavisado.
Consigo afogar-me num copo d’água.
Mas também consigo rodear o mundo sem uma gota dela.
Tive a sensação de ser aquela cadeira de balanço do alpendre.
Um lenço esquecido na gaveta.
Uma mala perdida no bagageiro.
Um estranho no ninho.
Alguém que paga um preço por ser diferente.
E pus-me a pensar cada vez mais.
E subi nos lombos da águia.
Já começava a sentir a brisa dos vales.
O ar frio das montanhas.
E ela rodopiava no ar.
E todas as sensações que tive foram embora.
E tínhamos sede de luz.
Cada vez mais me atraía aquela luz.
Uma sede e uma fome infinita me assolavam.
Eu queria conhecer os mistérios do Infinito.
Interpretar aquilo que jamais fora decifrado aos homens.
Os segredos que guardam o criador do saber.
Num piscar de olhos encontrei-me sentado a dedilhar o teclado. 
Cláudio M.

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