quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Neurografia...



Estava frio, mas tive calor.
Meu coração galopava no peito.
Meu rosto fervia.
O suor descia frio.
Evaporava na pele quente e trêmula.
Tive náusea.
Fiquei tonto.
Minhas mãos formigavam.
Meus pés dormentes.
Os olhos abriam e fechavam.
Cada vez ficava mais difícil enxergar o horizonte.
Tive medo.
Quis gritar.
Eu já respirava com dificuldade.
Faltou-me o fôlego.
Entalei com o silêncio.
Senti meu íntimo se despersonalizar.
Eu já conseguia me ver.
Flutuava sobre mim os meus olhos.
Os calafrios me atormentavam.
Lembrei-me da morte.
Pensei que fosse partir.
Sensação infausta.
Senti minha mente vazia.
Mas pesava como chumbo.
E a dor latejava sem misericórdia.
Eu já imaginava meu pescoço desfazer-se a qualquer momento.
Meus neurotransmissores gotejavam na velocidade da luz.
Tudo se tornava hostil.
Um ar beligerante nas sinapses.
Ameaçado pelos neurônios, eu estava.
As unhas entranhavam-se na almofada da cadeira.
Algo estava prestes a acontecer.
Neurastenia.
Minhas lembranças vestiram-se de branco.
Pensei que era paz.
Trégua.
Descanso para as turbulências que eu desconhecia.
Mas minha memória tomou lugar de enfermeira.
Fui refém.
Amordaçado por dentes que rangiam.
Lábios trancados por uma contração involuntária.
Aplicou-me nas veias uma dose de desgosto.
Gota a gota eu sentia entrar como fogo.
A carne gemia.
Nas minhas veias jorrava decepção.
Nas entranhas corria o dissabor.
Tive sintomas de desilusão.
Uma dose quase letal de mágoa.
As lembranças me traziam dor.
Ali o meu discernimento corria da recordação.
O que estava enterrado ressurgia sem piedade.
Esmigalhando o resto de sentimentos que me havia.
Eu precisava fugir dali, mas não pude me abandonar.
Um dilúvio sobreveio na minha expectativa.
Afogou-se nas lágrimas d’outro dia.
Cheguei à beira da loucura.
Do descontrole nervoso.
E senti a última gota daquele líquido de pesar medonho.
Tive instantes de alívio.
A batalha aproximava-se do fim.
Como um neuroléptico o meu Presente vencia a lembrança remota.
O ar voltava entrar livremente.
Os olhos retomavam seus eixos.
Nervos relaxaram novamente.
O coração pulsava como antes.
O ar funesto saíra.
A dor adormecia lentamente.
A cruel lembrança tomava distancia.
O Sol da esperança renascia.
Nuvens da expectativa surgiam do Infinito.
As escoriações desapareciam com o bálsamo da lealdade.
O presente sarava as escoriações.
E ali mesmo almejava o que me aprazia.
O Futuro.
Cláudio M.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Silêncio...

Hoje acordei às 11 horas, e ainda com sono.
Reclamei pelo barulho do lado de fora do quarto.
Pedi para me deixarem dormir mais.
Rendi-me.
Despertei-me.
Tomei parte da consciência.
Senti que esse seria mais um daqueles dias.
Dia em que tudo parece mais lírico do que o habitual.
Pensei em mim.
Pensei onde estava no mundo.
Não consegui concluir nada.
Por mais óbvio que fosse nada fazia sentido.
Aliás, não consegui imaginar algo concreto.
Uma imensidão de sensações chocavam entre si.
Quem sou eu?
O que sinto?
Não sei.
Eu realmente não sei.
E sei, ainda menos, por que estava pensando nisso tudo agora.
E ao mesmo tempo em que as sensações são arrebatadoras, elas se entrelaçam entre si.
Dão vida a sentimentos que não são muito humanos.
Eu não deve ser humano.
Os terráqueos me surpreendem.
Me encabulam.
Me chocam.
Vivo à mercê das mil antíteses que me habitam.
Não me canso de explorá-las.
Não sei vestir-me de modo que pareça outro.
Não sei dissimular minhas palavras.
Não sei mascarar meu riso.
As pessoas insistem que eu seja meio.
Mas não consigo.
Ou sou inteiro ou não sou nada.
Não consigo fazer dosagem.
Não consigo lançar meias-palavras.
Para além do horizonte gosto de levar minhas sensações e percepções.
Gosto de dar asas a mim mesmo.
Gosto de detestar.
Gosto de gostar.
Gosto de amar.
Sou eu.
Gosto de não tapar.
Gosto de não fingir.
Gosto de não encobrir.
Gosto de não disfarçar.
Por isso parei de me auto-sabotar.
Cansei de negar minha essência.
Sufocar minhas explosões.
Gostar de quem não gosto.
Sorrir para quem não vejo graça.
Ser social quando não quero.
Cansei da falsidade que tentaram me ensinar.
Não aprendi.
Por isso fiquei só.
Sempre só.
Faltou-me ar.
Um bafejo quente circundou-me.
Estava a buscar uma explicação.
A roupa comprimia meus lombos.
Tinha sono, mas não queria dormir.
Tinha fome, mas não queria comer.
Meus olhos divagavam de um lado para o outro.
Meu corpo estava cansado.
Estava a pensar.
Sempre a pensar um pouco mais.
Vi-me no meu calabouço.
No silêncio de uma voz que não tem com quem falar.
No silêncio da escuridão que nada diz.
Perante a fraca luz que penetra pela janela.
Atravessa o breu e atinge minha face.
O delírio de um coração que bate calado.
O meu mundo.
Por isso aqui só tem espaço para as luzes inconstantes.
Que sabem apreciar tudo que foge do lugar comum.
Que me faz enxergar a plenitude do Infinito.
Apenas só.
E sempre só.
No meu silêncio.
Consigo vislumbrar a luz na dosagem certa.
Que não secam as folhas do canteiro.
Que fazem florir o jardim.
E vejo-o tão lindo
Tão cheio de mistérios a serem desvendados.
Novas cores.
Diversos cheiros.
Várias texturas.
O meu jardim.
Aguarda a chuva para o outono.
E aproxima-se a colheita.
Eu apenas só.
Sempre só.
No meu silêncio.

Cláudio M.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Sentimento...

A cada dia faço uma nova descoberta.
Dessa vez tive certeza: Eu sinto.
Não é somente sentir.
Nem perceber, pensar, conhecer, reconhecer, adivinhar.
Não é somente isso.
Eu sinto demais e sempre mais.
Posso sentir muitas coisas.
Até o que alguém não imagina.
Hoje, em especial, acordei daquele jeito.
O jeito que somente eu sei.
A garganta seca.
Resgatado de sonhos longínquos.
E eu conseguia ouvir tudo.
Um ônibus que passou na avenida.
O ruído infernal de uma motocicleta.
O barulho do ar-condicionado.
Os chiados da vassoura de um gari do outro lado da rua.
Um pernilongo faminto me sondando.
Um rodo que batia nos cantos da casa.
O Tic-Tac dos meus relógios de pulso.
Eu percebia tudo.
Levantei e saí do quarto.
Estava amargurado com qualquer manifestação de vida ao meu redor.
Falaram comigo: Não pise aí, estou limpando!
E meu olhar foi ríspido.
O cachorro do vizinho latia, me incomodou.
O vento da manhã bateu em meu corpo e, por alguns instantes odiei aquilo.
Porque mesmo que a angústia me domine por inteiro, eu posso sentir demais e sempre mais.
Não tive fome, embora quisesse comer.
O meu horizonte estava acinzentado.
Pelo extremo do sentir eu passava.
Coloquei a primeira roupa que vi na frente.
Fui ao supermercado.
No caminho abri o vidro do carro, mas me incomodei com as pessoas ao lado que me olhavam.
Eu não queria estar ali.
Não queria que me olhassem.
Não queria falar com ninguém.
Naquele momento eu não podia transmitir nada de bom.
Nem para o ser mais medíocre que cruzasse meu caminho.
Eu só queria chegar ao supermercado e voltar pra casa.
Fechar-me em meu mundo de palavras.
Porque mesmo que alguém sinta algo eu sinto em dobro.
Eu posso sentir demais, sempre mais.
É um sensor que não desliga.
Já em casa pus-me à frente do computador e comecei a digitar.
Todas as frases que me vieram eu registrava.
Estava trancado em mim mesmo.
Minhas vontades gritavam.
Desejos aflorados cercados por grades.
Como um selvagem esganiçando-se numa cela.
Eu podia sentir o paraíso, mas também a melancolia.
E quando estou nela...
Risos.
Consigo viver cada letra que compõe um substantivo.
Eu sinto intensamente.
Eu sinto exageradamente.
Então penso que não gostaria de sentir.
Mas aí me lembro da sensação horrível de quando acordei.
Eu estava seco, mas agora acabo mergulhando numa tristeza ligeiramente contente.
Consegui sentir em apenas alguns minutos todas as sensações que eu poderia imaginar.
Uma sede avassaladora.
O ganhar na loteria.
Um pós-operatório.
Uma fome gritante.
A dor de um parto.
Um abraço.
Uma surra.
Um amor.
E uma sutil tristeza me irrompeu.
Por que sinto tanto?
Por que não sou apenas mais um que vê tudo de forma superficial?
Por que sou tão profundo ao ponto de ser dilacerado por algum desavisado.
Consigo afogar-me num copo d’água.
Mas também consigo rodear o mundo sem uma gota dela.
Tive a sensação de ser aquela cadeira de balanço do alpendre.
Um lenço esquecido na gaveta.
Uma mala perdida no bagageiro.
Um estranho no ninho.
Alguém que paga um preço por ser diferente.
E pus-me a pensar cada vez mais.
E subi nos lombos da águia.
Já começava a sentir a brisa dos vales.
O ar frio das montanhas.
E ela rodopiava no ar.
E todas as sensações que tive foram embora.
E tínhamos sede de luz.
Cada vez mais me atraía aquela luz.
Uma sede e uma fome infinita me assolavam.
Eu queria conhecer os mistérios do Infinito.
Interpretar aquilo que jamais fora decifrado aos homens.
Os segredos que guardam o criador do saber.
Num piscar de olhos encontrei-me sentado a dedilhar o teclado. 
Cláudio M.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

E minh'alma fala...


“Dacaflurien.
Esblanacovurdia.
Danassius bodare.
Cravondus lodarien.
Blinessis danatrevaica.
Vencanachen donossacavuri.
Planaconutia veredoli camatulo.
Decoplei nirenda iva canatlonai.
Catafleruda ivinéssio danata crabôni.”
O que quer dizer?
O Infinito sabe.
É a língua que uso para tratar dos gemidos da alma.
O idioma puro que trata de coisas que a carne é incapaz de compreender.
Só ele entende.
Só ele decifra.
Só ele dá a resposta.
Só minh’alma sabe interpretar aquilo que ele fala.
Meus ouvidos são sujos para receber a mensagem.
Impuros para cortejar as palavras imaculadas.
Que penetram como fogo nas minhas entranhas.
Sou grato por ainda ter algo puro, minh’alma.
Capaz de entender quando o infinito fala.
Palavra que não voltam vazias.
Sempre ocorrem mudanças.
“Escapaflúrien denássis plei.
Branocovitche naródien.
Banárion.”
Hoje minha alma só quer desabafar.
Está carente e necessitada de consolo.
As cicatrizes relembram as feridas que um dia doeram.
Calos que surgiram.
Úlceras que arderam.
Dores que incomodaram.
Uma respiração aliviada ela conseguiu.
Um oásis na solidão do Saber.
Durante alguns dias ela falou comigo.
Nosso diálogo foi intenso.
Muito proveitoso.
Grande sabedoria me foi ensinado.
Ela tornou-se minha conselheira.
Ela enxerga aquilo que meus olhos limitados não vêem.
Eu acredito nela.
A única que merece meu crédito.
Descobertas fabulosas me apresentou.
Ela sempre me leva para passear na águia.
Várias vezes eu caí.
Ela sempre continuou de pé.
Todas as vezes é a única mão misericordiosa que me levanta.
A pá que ajunta meus farelos.
A vassoura que varre meus cacos.
O ouvido compreensivo que me escuta.
A única que consegue interpretar os gemidos da minha fraca carne.
Amor e gratidão é o que sinto por ela e pelo Infinito.
Um abraço eterno é o que me envolve.
A tríplice união que me levará para conhecer o desconhecido.
Sei que o melhor está por vir.
E olhando para o horizonte vejo uma estrada.
Uma vereda que desaparece no espaço.
Um caminho que não cabe mais alguém.
Onde palmilharei nos passos do Infinito.
Sinto calafrios na falta de companhia.
Tenho olhos marejados pela ausência de um abraço.
Um nó no esôfago na falta de um olhar sincero.
Suspiros pela enfadonha decepção.
A solidão é uma seqüela do saber.
Eis o preço do aprendizado.
Desilusão ao me deparar com os incapazes de caminhar.
E me consome aquela velha vontade.
O desejo de ausentar-me do meu corpo finito.
E fundir-me na plenitude da eternidade.
“Zenébrius baldon.
Canassis deflarion.
Belenuric erquevanas dak.”
O presente do Infinito.
Cláudio M.